Entrevista: Por uma América Latina mais autônoma

Eduardo Galeano

O escritor uruguaio, Eduardo Galeano, esteve em Curitiba no mês de novembro no festival de Música Campesina, produzido em conjunto com o Governo do Estado do Paraná e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST. Ele falou com a imprensa sobre o livro “Boca do Tempo”, sobre o Uruguai, o Brasil e também sobre a América Latina.

  Eduardo Hugbes Galeano, nasceu em Montevidéu em 1940. Aos 14 anos entrou para o jornalismo, publicando desenhos com o pseudônimo Gius, porque a pronuncia de seu nome em espanhol era difícil. Algum tempo depois passou a publicar artigos com o nome Galeano. Mas as experiências de vida do uruguaio não pararam por aí. Ele foi mensageiro, desenhista, peão numa fábrica de inseticida, taquígrafo, caixa de banco, diagramador e editor. Galeano também foi preso várias vezes durante o regime ditatorial no Uruguai. Em 1973, ele foi para a Espanha e depois para a Argentina. Na Argentina, Galeano e seu amigo escritor e jornalista, Júlio Cortazar, fundaram o jornal Crisis. Em 1985, voltou para Montevidéu, onde vive até hoje.

 É autor de vários livros, traduzidos em mais de 20 línguas, e de uma profusa obra jornalística. Recebeu o prêmio Casa das Américas em 1975 e 1978 e o prêmio Aloa dos editores dinamarqueses em 1993.  A trilogia Memória do Fogo foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book Award (Washington University, USA) em 1989.

 Em abril de 1999, recebeu o Prêmio à Liberdade da Cultura, outorgado, em sua edição inaugural, pela fundação Lannan, dos Estados Unidos.

 Mais do que um escritor, é um homem cheio de vontade de viver e esperança, apaixonado pela vida e pelas pessoas. O discurso do pensador  dá aquela injeção de ânimo tão necessária nos momentos atuais.

 AMBIENS- Em sua palestra o senhor falou sobre o movimento de esquerda da América Latina e da contradição que a esquerda encontra quando entra no poder. O que realmente representam os ideais da esquerda no mundo hoje?

 GALEANO-É bem difícil fazer uma listagem dos ideais de esquerda. Mas eu diria que seriam os ideais mais ligados à idéia da liberdade, a idéia da comunhão com a natureza, da preservação da vida humana e da vida do planeta, que é a nossa casa. A certeza de que nós fazemos parte de um arco-íris de diversas cores. A ressurreição dos laços solidários que estão hoje mais feridos. Eu não diria mortos, mas quebrados e feridos, a partir da imposição universal de uma escala de valores que prevê a salvação pessoal, na idéia de que o outro é um competidor e um inimigo, não um companheiro e um ser humano. Como eu digo sempre “no outro uma ameaça e não uma promessa”.  Na verdade, eu acredito que, como homem de esquerda, alguém sempre tem alguma coisa a dizer que vale a pena escutar. Desde que escrevi “Veias Abertas” (Veias Abertas da América Latina) até agora, depois de trinta anos, alguns desses valores já não têm a força que antes tinham. Naquele tempo (anos 70), ninguém discutia que a pobreza é filha da injustiça.  Naquela época nós já anunciávamos isso. Os partidos de centro aprovavam, a direita não discutia. Agora, uma minoria continua acreditando que a pobreza é filha da injustiça. Para a maioria dos opinimakers, dos fabricantes de opinião no mundo, a pobreza é o castigo que a ineficiência merece. Isso é uma mudança radical  de valores.

 AMBIENS-O senhor acha que a vitória dos candidatos de linha do socialista Tabaré Vázquez representa o final de um ciclo ou é um movimento pendular que ora privilegia o neoliberalismo, ora um modelo mais socialista?

 GALEANO- O governo da frente Vasquez, que está nascendo agora (começará no dia primeiro de março), é o resultado do desenvolvimento de um movimento popular. O partido jamais falou que, ao ganhar o governo, iria se implantar o socialismo. Seria irreal prometer isso. O que eles prometeram foram coisas mais moderadas, mais modestas. São as coisas mais ou menos realizáveis, que espero que sejam realizadas, num país como o Uruguai: sangrado, quebrado e desesperançado. Então, a primeira prioridade é lutar contra a pobreza, a segunda é resgatar os filhos perdidos de um país que perdeu a população jovem condenada ao exílio econômico, e a terceira atitude é cuidar do desenvolvimento econômico. Tudo isso desde que não contradiga a soberania nacional sobre os recursos básicos e que permita a criação de fontes de emprego. O problema é que o Uruguai foi convertido em um banco. A estrutura dominante, que está no poder há alguns anos, decidiu que este não era um país, e sim um banco. O banco quebrou e assim estamos. A esquerda recebe um país hipotecado, com compromissos e dívidas externas pesadíssimos. Esse é o drama latino-americano ter a soberania condicionada. Você é independente até certo ponto, porque depois quem decide e quem manda são os credores. Esse é o resultado de muitos anos de estado de dívida perpétua, pagando e endividando-se mais e mais. Aí, a esquerda recebe um governo com compromisso de pagamento que excede o que país produz. Para fazer frente a essa negação da esperança é preciso concretizar uma política conjunta entre Uruguai, Brasil e Argentina, como também com outros países, como o Paraguai e Bolívia. É preciso fazer uma política conjunta para o Mercosul, ampliá-lo para não ficarmos sozinhos. A idéia de que você pode se salvar sozinho não tem mais nenhuma relação com a realidade de hoje. Sozinho ninguém pode nada. A solidão nos condena ao fracasso.

 AMBIENS- No Brasil pode se dizer que houve um fim do ciclo neoliberal?

 GALEANO- Pelo que eu vejo, não. A política econômica não mudou nada. O que eu resgataria do governo Lula é sua posição internacional. Essa vontade de fazer uma frente unida dos países que vivem em situações semelhantes, com problemas semelhantes, com um destino em comum a conquistar, e que tem a urgência da restauração da dignidade ferida na negociação financeira, comercial e cultural.

 AMBIENS-Sem a união entre os países latino-americanos existe alguma  possibilidade de mudança?

 GALEANO- Não há possibilidade, nenhum país tem. O Brasil pode achar que tem, pela dimensão imensa do país. O Uruguai é um país pequeno, mas a nossa situação é a mesma. Por maior que o Brasil seja, internacionalmente não tem a possibilidade de se salvar da solidão. Também está na hora do sul do mundo recuperar aquela energia perdida dos velhos tempos, há uns 40 ou 50 anos, quando se faziam aquelas conferências do terceiro mundo, um mundo independente dos dois blocos que naquele tempo existiam: capitalismo e comunismo. Era a emergência de uma terceira possibilidade que chegou a ter muita força e que depois se perdeu na névoa do tempo. Está na hora de acabar com a impunidade dos poderosos nos grandes mercados financeiro e comercial, como também no panorama cultural mundial. Eles são os donos dos nossos sonhos, das nossas opiniões, das informações que recebemos ou não recebemos conforme a vontade de quem manda. Está na hora de recuperar isso tudo. Por falar em informações, o Governador (Roberto) Requião me falou que nenhum jornal brasileiro publicou uma linha sequer sobre o plebiscito da água no Uruguai. O plebiscito da água é muito importante, não por ter sido realizado no meu país, mas sim porque foi o primeiro país que fez uma consulta pública sobre o uso de um recurso natural. Sessenta e cinco por cento dos uruguaios votaram a favor dessa emenda constitucional, que garante que a água vai continuar sendo de utilidade pública e não um negócio privado. Isso não apareceu em jornal nenhum. Então, eu acredito que há um controle mundial nos meios de comunicação. Sempre coloco o exemplo do que acontece em noventa e oito. O mundo inteiro ficou condenado a ler e assistir dia após dia notícias do romance do presidente do planeta, Bill Clinton, e Mônica Lewinsky. Você tomava café da manhã com ela, jantava com ela, um ano inteiro. Um dia, estava na Europa, abri o jornal: puro Mônica Lewinsky. “Mais uma vez essa moça, que saco!”, pensei. Perdida, uma notícia no fim da última coluna da página sete: as três organizações ecológicas mais importantes do mundo tinham se juntado em Londres para divulgar um relatório supersério feito pelos cientistas mais indiscutíveis do planeta, que revelava que, em meio século, o mundo tinha perdido um terço dos recursos naturais. Isso não teve a menor importância, o mundo em meio século perde um terço dos recursos naturais e não teve espaço para colocar essa notícia, porque estavam ocupados por essa história interessante, mas nem tanto.

 AMBIENS-Qual é o papel da mídia alternativa nesse contexto?

 GALEANO- Eu acredito muito na Internet. No começo eu fiquei meio desconfiado, mas hoje eu vejo as notícias se espalhando, é incrível.

 AMBIENS- Mas poucas pessoas têm acesso a Internet?

 GALEANO- Sim, mas as pessoas enviam e-mails, fazem cópias e mandam para amigos, mobilizando muita gente.

 AMBIENS- O senhor disse nas suas últimas entrevistas que existem projetos aparecendo que podem mudar realmente esta situação. Mas como reconhecer esses projetos, como identificá-los?

 GALEANO- É muito difícil concretizar essas coisas. Esse plebiscito da água merece ser divulgado e contagiado, imitado por outros países. O Uruguai também já teve um plebiscito contra a  privatização de empresas públicas. Ganhou. Setenta e dois por cento da população foi contra e ninguém imitou isso. Quando você está tomando uma medida que vai afetar o destino de várias gerações, como a privatização dos recursos essenciais do país, é elementar consultar a população. É difícil fazer uma lista das boas notícias, mas elas existem o tempo todo, às vezes, numa escala local que não tem a menor repercussão, mas são verdadeiras. Com o passar do tempo, as pessoas vão valorizando as pequenas escalas, pequenas dimensões, e desconfiando cada vez mais das espetacularidades das grandes notícias . Eu escrevo para isso, para revelar a grandeza escondida nas coisas pequenas e para denunciar a mesquinharia nas coisas grandes.

 AMBIENS- Nesse sentido, o Fórum Social Mundial, que é realizado no Rio Grande do Sul, não se encaixa na fábrica de espetacularidades?

 GALEANO- Não, essa é diferente. É uma espetacularidade nascida da insólita tentativa de juntar todas essas pequenas coisas desconhecidas que existiam, mas que estavam dispersas.Então, o fórum é um grande passo adiante na direção correta de juntar os dispersos, de revincular os desvinculados, para nos salvar da solidão. Nesse sentido, o mundo tem avançado muito, de maneira silenciosa, mas certa de que não corresponde exigir resultados imediatos. Tudo é um processo longo e complexo, que deve acontecer devagar para durar mais. As coisas que são resultado das decisões de cabeças iluminadas que estão guiando o destino no mundo não funcionam. Elas têm que ser sentidas como necessidade. O Fórum abre um grande  espaço de encontro. Ele é importante por nos mostrar que os dedos fora da mão não servem para nada.

 AMBIENS-Diante dessa diversidade de posições dos países latinos, alguns se colocam como aliados os EUA e Ásia e outros, como Brasil, o Uruguai e a Venezuela  se colocam como grupos mais independentes.  Como pensar a América Latina? O que é a América Latina hoje?

 GALEANO- A América Latina é uma região do mundo dentro da qual tem muita sinergia de mudanças, mas tem também a sinergia de um sistema colonial que vem se perpetuando por mais de cinco séculos. Eles têm poder econômico imenso, boa parte do poder político um poder cultural imenso, e que são aquelas forças que desde sempre estão nos treinando pela certeza da nossa impotência. São muitos séculos nesse pensamento, é muito difícil de lutar contra isso. Eu acredito que é possível reinventar a vida. Vamos imaginar o futuro, vamos cometer a loucura de acreditar que essa terra pode ser outra terra, que nossa região não está condenada por Deus ou pelo Diabo à pena perpétua da solidão e desgraça. Mas, isso não é fácil de entender. Como sempre, há uma a tensão criativa, uma contradição criativa entre as forças da inércia dos sistemas tradicionais e as forças novas que surgem.  O problema é que, sem perceber, as forças novas que surgem adotam os valores da forças que combatem, esquecendo, por exemplo, toda uma escala de valores que acredita no sucesso como uma fonte de valor. Primeiro, o que tem sucesso é bom, segundo, é bom o que é rentável, o que tem sucesso rentável, senão não é sucesso, e vice e versa. Então, começa uma correria louca por fazer a coisa de tal maneira que inimigo te aplauda e diga como você é bonito! Para mim, cada vez que me dizem que você é muito bom, quero ver quem está falando, porque isso pode ser uma acusação muito grave.

 AMBIENS- Fale-nos sobre o seu novo livro Boca do Tempo.

 GALEANO- O livro fala da esperança de vida e de estar aqui no mundo, são relatos curtos. Ao todo são trezentos e trinta e três páginas, o que não foi deliberado. Esse é o número que eu encontrei quando eu fiz o índice. Aí, eu contei para ver quantas páginas tinham: três, três, três. É um número bom. Dá boa sorte. Mas muita coisa ficou de fora, porque quem escreve tece. A palavra texto provém do latim textum, que significada tecido, ou seja, quem escreve está  tecendo, uma lavoura têxtil. Então, você trabalha com fio de cores que são as palavras, as frases, os relatos. Elas vão se encontrando numa trama comum. Aí, têm alguns fios que são lindíssimos, porém não coincidem, não combinam, e no final da obra não entram. Trabalhei oito anos no “Boca do Tempo”. Uma estrutura simples, mas de simples não tem nada. Quanto maior a sensação de transparência e coisa nua que o leitor tem, mais complicado é o trabalho que essa aparente simplicidade contém.  Escrever para mim  é um esforço enorme, mas é também uma alegria imensa, quando eu consigo sentir que as palavras são bastante parecidas com o desejo de viver.