Angela Duarte Damasceno Ferreira é Doutora em Sociologia pela Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris, fez estágio de pós-doutorado em Québec, no Canadá e Universidade Paris X, na França. Angela leciona na Universidade Federal no Doutorado em Meio Ambiente e desenvolvimento e no Programa de Pós-Graduação em sociologia da Universidade Federal do Paraná. Entre os trabalhos publicados, podem-se citar os capítulos dos livros: MOVIMENTOS SOCIAIS NO CAMPO; CENÁRIO DA ECONOMIA E POLÍTICA DO PARANÁ; PARA PENSAR OUTRA AGRICULTURA; BRÉSIL: UN SYSTÈME AGRO-ALIMENTAIRE EN TRANSITION; AGRICULTURES ET RURALITÉS AU BRÉSIL, além de vários artigos em revistas científicas sobre ruralidade, agricultura e meio ambiente. Angela Damasceno que desenvolve trabalhos em temática da agricultura familiar, movimentos sociais rurais e nos assentamentos conversou com a equipe do Folhambiens sobre as discussões sobre a nova ruralidade brasileira.
O que é o novo rural?
Angela -Hoje tem muita gente falando do novo rural e sobre a nova ruralidade, inovação do rural etc. Existe uma discussão que não é só no Brasil, mas também no mundo. Esse movimento começou depois de algumas décadas em que se falava do fim do rural, nas ciências sociais, no pensamento comum e nas políticas públicas. Foi o período ligado à modernização da agricultura, que implicou no esvaziamento demográfico do meio rural, na industrialização da agricultura, numa dependência maior do chamado “agronegócio” e das indústrias que fornecem insumos para os produtores agrícolas. No Brasil, a gente situa esse período nas décadas de 60 em diante até o final dos anos 80, que foi o grande boom desse processo. Em outros países, esse processo se deu antes, e ficou conhecido como “Revolução Verde”. Esse processo foi quase a confirmação de que o rural e o agrário iriam se subordinar ao industrial e ao urbano, perdendo crescentemente a sua importância.
Embora eu possa dizer que esse processo de urbanização ajudou a corroborar essa imagem, as raízes do pensamento sobre o fim e o declínio do rural coincidem com as origens do capitalismo, que tem como base a indústria e o urbano. Desde então, os pensadores clássicos já falavam do declínio do rural e de sua subordinação ao urbano. Nos anos 80, nos países desenvolvidos, e nos anos 90, no Brasil, começou a se falar do novo rural. De certa forma, era uma constatação de que o rural se transformava, mas não necessariamente desaparecia.
No Brasil, o termo “Novo Rural” foi usado pela primeira vez em uma pesquisa realizada no país inteiro e coordenada pelo Departamento de Economia da Unicamp, com participação inclusive do Paraná. O projeto descobriu que o rural não era apenas agrícola, que a tendência do rural seria ter outras funções, além de agricultura. Portanto, o rural poderia parar de esvaziar, abrigando pessoas com ocupações diversificadas, não apenas agricultores. Então, se falou muito da pluriatividade do agricultor e de não-agricultores ocupando o campo. Em outros países, já se falava que estava havendo uma separação entre o rural e o agrícola e também uma diversificação ocupacional do rural. Nos países desenvolvidos, isso ficou extremante marcado porque o rural começou a ser um lugar privilegiado de moradia da população urbana. Era a mesma coisa que o pessoal do novo rural brasileiro constatava, com a diferença de que nem sempre estava pressuposto que esse movimento de mudança das funções do rural significaria a sua urbanização, da perda de sua singularidade e da sua homogeneização com o meio urbano. Nem sempre os estudiosos dos países europeus, que estudavam o renascimento do rural, viam nessas mudanças o fim do rural. O projeto Novo Rural dava muita ênfase a perda de caráter agrícola do rural, a perda de sua singularidade. Parecia que o urbano estava se espalhando sobre o rural, portanto, estava se perdendo o que a gente chama de singularidade entre o rural e o urbano.
O francês Bernard Kayser, lançou o livro “La Renaissance Rurale” no início da década de 90. Nesse livro ele mostrava mais o que o projeto Novo Rural estava identificando no Brasil. Ele questiona a perda das diferenças entre o rural e o urbano por conta das características analisadas. Mas, o autor conclui que existem as diferenças entre os dois meios, mesmo nos países desenvolvidos. Para Bernard, há um renascimento do meio rural pela sua transformação num espaço mais complexo, mas isso não significa o fim das diferenças entre o rural e o urbano. Segundo ele, poderíamos manter essas duas categorias da realidade social, espaciais e analíticas.
Como acontece o novo rural no Brasil?
Angela - Essa discussão no Brasil deve ser muito bem pontuada e muito bem analisada, porque de fato acontece esse processo de transformação do rural, mas muito menos do que ocorre nos países desenvolvidos. Quando se fala da diversidade do rural isso é novo em termos, isto é, novo em relação à modernização do rural, processo que causou esvaziamento populacional deste meio. Se você pensar no rural mais tradicional, ele sempre foi muito complexo. Essa separação radical entre o agricultor e não-agricultor aconteceu como uma invenção da modernização, mas que também nunca se consumou 100 %. O que parece ser novo é que aumentaram as oportunidades para o rural ser um espaço de moradia, mais nos países desenvolvidos, porque há uma facilidade de transportes e qualidade serviços que facilitam a instalação de urbanos no espaço rural. Isso é relativamente novo, no Brasil, isso acontece em poucas regiões. De fato, há maior diversidade entre o trabalho agrícola e não-agrícola pelo próprio desenvolvimento rural. Os camponeses antigos só poderiam trabalhar como assalariado para outro agricultor mais rico ou trabalhar para a agroindústria. Hoje, conforme a região, ele tem uma gama maior de atividades. Os moradores do meio rural podem exercer atividades não-agrícolas. No Brasil isso é muito restrito. Aqui, de fato, o rural ainda é majoritariamente agrícola. Por isso, o termo novo rural deve ser usado com cautela. O rural no Brasil tem uma dinâmica puxada pela agricultura. A pluriatividade está aumentando, como indica a pesquisa da Unicamp, mas ainda é uma tendência. Mesmo os dados apresentados pela Universidade no primeiro conjunto de livros lançados, a pluriatividade do agricultor é insignificante, não chegando a 10%, segundo dados do PNAD de 1990. A pesquisa da Unicamp não menciona uma coisa que está começando a surgir no Brasil, que também é minoria e que já acontece em outros países, mas se percebe como tendência: a questão do rural associado funções ambientais. Começam a surgir movimentos de agroecologia, o uso de tecnologias menos agressivas, há uma preocupação com a água, e também com o destino dos dejetos dos animais. Enfim, uma série de preocupações ambientais que estão sendo incorporadas no meio rural. Mesmo aqueles que estão trabalhando com padrões tecnológicos mais convencionais da modernização, já sabem que há uma pressão. Eles podem não pôr em prática, mas já sabem.
O que está acontecendo é que existem mudanças em curso, algumas como tendência, outras são efetivas, mas principalmente, a gente não pode falar mais da separação do rural e do urbano. Na verdade, a gente nunca pôde falar.
Será que ao falar em urbano/rural não se está criando uma polarização e se isso prejudica a modo de pensar a vida do homem?
Angela - Interfere, mas a forma de pensar polar não é a mesma coisa que pensar que há singularidades. Você pode ter um pensamento polarizado em que o espaço rural e os espaços urbanos, em que as culturas desse dois meios são entidades à parte. O pensamento dicotômico polarizado criou essa forma de pensar. Primeiro, o rural e urbano estavam ligados aos conceitos de sociedade tradicional e de sociedade moderna, respectivamente. Logo se pasteurizou como sociedade moderna sendo o urbano e a tradicional como o rural. Essas duas entidades físico-espaciais, culturais e econômicas não se comunicavam. A única comunicação entre as duas entidades acontecia por uma interferência de difusão cultural ou difusão tecnológica do pólo superior, que era o urbano industrial e moderno, sobre o outro. Toda a teoria da modernização, até a criação da extensão rural, se baseia nesta forma polarizada. A idéia era que no urbano estava a modernidade e o futuro e que no campo estava o atraso, o ritmo lento.Por isso, seria possível a transformação desse pólo atrasado no moderno. Eles pensavam que podiam fazer isso modernizando o meio rural, industrializando a agricultura, transformando a cultura rural pela difusão tecnológica e cultural.
Diferentemente do pensamento dicotômico, quando se pensa na singularidade não significa abrir mão da interdependência, da complementaridade e de um processo de homogeneização. Todavia, o rural e urbano continuam distintos nas suas características. Voltando ao livro “La Renaissance Rurale”, o que Bernard disse é que continuava existindo distinção entre o rural e urbano, mesmo considerando a interdependência. Para ele, é preciso considerá-los diferentes pelas suas especificidades. A primeira coisa que continuava existindo era a autoprodução e o autoconsumo, que se dá muito mais no meio rural do que no meio urbano. Outra coisa é a auto-ajuda, ele disse que há muito mais casos de ajuda da vizinhança, e a parentela era mobilizada para a ajuda das famílias, tanto nas coisas práticas da vida cotidiana, como na produção. Outra coisa que continua forte (esta constatação já não é do Bernard Kayser), é uma relação com a natureza que é particular, que implica numa outra temporalidade de vida. Por mais que o agricultor esteja tecnificado, ele tem um tempo de espera, que depende da natureza. Esse ciclo da natureza que indica para ele uma temporalidade de vida, com certeza tem influência sobre a forma como se relaciona com as pessoas e como organiza o cotidiano, o tempo que a natureza concretiza suas transformações. Por exemplo, quando se está trabalhando numa fábrica a temporalidade é controlada e rápida. Numa linha de montagem você tem o ritmo que te controla, que te acelera.
Você fala em alguns textos que muitos pequenos municípios não têm experiências urbanas? Então, o que seriam as experiências urbanas que se pode ter numa cidade?
Angela - Há toda uma discussão em torno desta questão. Você pode partir até de autores que usam a dicotomia. O pensamento dicotômico fala claramente o que são as experiências urbanas e rurais. Ao quebrar esse pensamento você percebe que essas experiências se interpenetram. Mesmo assim você tem parâmetros para pensar no que é uma experiência rural e urbana. Apesar de falho, o pensamento dicotômico dá alguns indicativos importantes para esta análise. Algumas coisas associadas ao urbano: o maior nível de complexidade e possibilidade ocupacionais; maior qualidade dos serviços; a simultaneidade dos acontecimentos, principalmente no sentido cultural; e a segmentação dos papéis sociais. Segundo essa linha de pensamento, a simultaneidade estimula o individualismo em contraposição ao comunitarismo, já que, quanto mais segmentos, menos se têm a sensação de pertencimento. A grande crítica que se faz a esse pensamento é que na cidade há uma reinvenção da comunidade, que se dá pela igreja, pelas redes de solidariedade dos bairros pobres, ou pelos bandos (tribos, gangues). Como se as pessoas, mesmo no meio urbano, precisassem da sensação de pertencimento forte. Já que isso não é possível em uma escala maior, como se dá no meio rural, se faz em subgrupos, mas isso é reinventado. Isso não contradiz totalmente o fato de no meio urbano existir maior segmentação dos papéis, justamente pelo tamanho e pela forma da organização do espaço social que predomina no meio urbano. No meio rural modernizado, as comunidades também sofreram um esvaziamento, quebrando laços sociais e dispersando as pessoas. Todavia, novos grupos migraram para as comunidades, aumentando a diversidade de moradores que lá vivem. Apesar disso, em regiões onde há agricultura familiar, onde há campesinato, ou de alguma forma houve fixação de família no campo por algumas gerações, você percebe que ainda permanece forte, em contraposição com os meios urbanos maiores, a sociedade de interconhecimento, o que é comum não só no meio rural, como também em pequenas localidades.
No Brasil, há uma discussão política, técnica e teórica em torno do conceito do que é uma cidade, inclusive com o IBGE. Há um interesse muito grande das prefeituras para aumentar o perímetro urbano, por passar-se a cobrar IPTU e não imposto rural.
O meio rural pode ser considerado o espaço do futuro?
Angela -É um espaço do futuro a ser construído. Na verdade, esta construção já está acontecendo. Os movimentos sociais estão se mobilizando e construindo o rural como espaço de vida, como moradia. Desde o MST, que no século 21 luta para voltar para a terra, os movimentos de agroecologia, Movimento das Mulheres do Campo, que lutam pelos direitos das mulheres rurais, todos essas articulações indicam uma potencialidade de se construir o rural como espaço de vida e trabalho. Isto acontece para aqueles que são rurais, apesar de estarem na cidade, e para aqueles que são urbanos e querem viver no campo.